"Porque pra mim, mulher de verdade é aquela que tem estria e celulite, e sai por aí nem se importando com isso. Mulher de verdade, é daquelas que tá um pouquinho á cima do peso, e não pensa em fazer aquelas dietas malucas pra emagrecer três quilos, e depois ainda achar que tá gorda. Mulher de verdade, é ser mulher sabendo que todos tem defeitos, e que ninguém é perfeito. Porque ninguém nunca fui, e nunca vai ser. Eu choro vendo filme de terror, e me escondo debaixo do cobertor vendo romance. Sou toda contraditória, oposta, errada. Como um pote de sorvete de chocolate assistindo sessão da tarde e checo meu celular de cinco em cinco minutos pra ver se você deu algum sinal de existência. Acordo e passo o dia sem pentear o cabelo, prefiro comer a sobremesa primeiro, e detesto a banalização do amor. Tô nem aí pras gordurinhas que eu tenho na barriga, e tô muito feliz usando biquíni com as minhas estrias. E quer saber? Eu tô feliz. Tô muito feliz. Porque o que importa, é o que se é por dentro, e por dentro, eu sou incomparável. Pra mim, ser mulher de verdade, é ser assim. Ser por dentro primeiramente, e depois pensar no que se deve ser por fora.

"Mas o problema é que você não gosta só de mim, você gosta de mim, da moça da padaria, da sua vizinha gostosa do nono andar, e também daquela sua prima que pintou o cabelo de ruivo só porque você gostava de ruivas. Você gosta de sucrilhos, de arroz, de sushi e também de jogar vídeo-game. Você passa o dia ouvindo Nivarna e The Maine, porque você gosta pra caramba. M&M’s e baleias então nem se fala. Você gosta de tantas coisas que é impossível contar nos dedos e muito menos inumerar, mas me diz, quantas coisas você ama? Quantas coisas você não consegue ficar um tempo sem pensar, e quando fica, automaticamente seu cérebro faz você se lembrar? Quantas coisas você quer ter por perto porque sabe que a idéia de ficar longe é abominante? Eu realmente não sei dessas coisas, nem sei se elas existem, e se existem, tenho certeza que não estou incluída nelas. Entendeu a diferença? Por muito tempo, eu amei você, mas você, você apenas… gostou de mim. E você gosta de tantas coisas, que acho que no meio dessas coisas acabei sendo esquecida, ou desgostada.

"A única coisa que eu sabia sobre o garoto do 305 era que ele gostava de Zumbis, curtia John Mayer e tinha um sorriso lindo. E tudo isso já era o suficiente para me deixar encantanda.
Sexta-feira, 20 de Outubro, 17:01 da tarde. Foi naquele dia que eu conheci o garoto do 305. No começo eu achei ele meio metido, esnobe, daquele tipo de garoto que pega cinco e nem lembra do nome, sabe? Mas acabei mudando de opinião quando descobri que ele gostava das mesmas bandas de rock que eu e cantava “The Heart Of Life” do John Mayer freqüentemente no elevador. Sem falar que eu caí de quatro pela camisa que ele usava naquele dia, era preta e tinha escrito em letras enormes “Zombies love Nerds”. Ok, isso soa meio estranho, mas eu adoro zumbis. Sério mesmo. Antissocial, nerd e maluca por zumbis. Ok, isso é o básico, mas me define bem. Passaram-se três semanas, todo o dia eu via o garoto do 305 passar pelo saguão e dividir o elevador comigo. Na verdade, sempre esperava dar cinco horas, porque sabia que ele chegava do treino de futebol, pra então, poder dividir o elevador com ele. Isso pode parecer meio masoquista, mas eu gostava de olhar pra ele, mesmo que por um curto espaço de tempo enquanto o elevador subia para o décimo andar.
Terça-feira, 8 de Novembro, 17:01 da tarde.
Ele colocou o pé dentro do saguão e eu me apressei para pegar o elevador junto com ele como sempre fazia. Percebi que ele usava a mesma blusa do dia em que eu o conheci. Dei um sorriso, quer dizer, foi quase instantâneo. Acho que ele nunca nem reparou em mim. A garota nerd que gosta de zumbis não deve fazer o tipo dele, não é mesmo?
— Hm. Camisa maneira. — Disse tentando quebrar o silêncio. Calma, ele sorriu pra mim? Meu. Deus. Ele. Sorriu. Pra. Mim. Pra mim, a garota nerd que gosta de zumbis!
— Valeu. Primeira pessoa que me diz isso.
— Como assim? Não entendo como as pessoas podem não gostar de Zumbis.
— Finalmente alguém que concorda comigo.
— Acho que agora não sou mais a única que gosta de Zumbis. Pelo menos não sou a única estranha, sou?
— Não é estranho gostar de Zumbis, estranho mesmo é não gostar. Você é a garota do 311, não é?
— Sou sim, como descobriu?
— Sabe, me mudei tem pouco tempo, acho necessário saber um pouco mais sobre as pessoas que são minhas vizinhas, não é mesmo?
— Necessariamente vizinhas, ou vizinhos também?
— Digamos que não pensei muito nos vizinhos. — Eu ri. Não tinha graça nenhuma, mas eu ri. O que esse guri anda fazendo comigo, meu Deus?
— Outro dia a gente se fala, esse é o meu andar. — Eu não queria ir, queria ficar e conversar mais com ele sobre zumbis ou qualquer outra coisa. Juro que nunca quis que um elevador parasse de funcionar, como queria que acontecesse naquele momento.
— Amanhã?
— O que tem amanhã?
— Te vejo no elevador, ás cinco.
E foi naquele dia que eu conversei pela primeira vez com o garoto do 305 e acabei descobrindo que ele também gostava de Zumbis. E que ambos éramos completamente estranhos. A única coisa que eu sabia sobre ele, era que morava no 305, gostava de Zumbis, curtia John Mayer e tinha um sorriso lindo. Isso era tudo que eu sabia, mas era o suficiente para me deixar encantada. E foi aí que eu comecei a perceber que adorava o cabelo dele, e que o sorriso torto dele era tão lindo e cativante que me dava vontade de sorrir também. E droga, ele tinha um estilo tão… próprio. Ele era tão diferente e ao mesmo tempo tão indiferente que eu passei a pensar nele diariamente. E é claro que eu já sabia que estava ferrada.
Bom, depois daquele nosso-primeiro-papo-sobre-zumbis nossos encontros casuais no elevador ás cinco da tarde se tornaram freqüentes, e eu acabei descobrindo muito mais sobre o garoto do 305. Um dia, ele acabou me chamando pra assistir um filme sobre zumbis que tava passando no cinema ali perto do prédio, e eu aceitei. Não podia recusar, era sobre zumbis, e eu adoro zumbis. E cara, era o garoto do 305 me chamando pra sair! Isso com certeza não acontecia com muita freqüência. Sabe, eu tava com o garoto que eu gostava, e mesmo que eu meu sentimento não fosse correspondido eu tava feliz sabe? Mesmo que fosse uma felicidade cômoda, eu tava feliz. Ele se tornou meu amigo, passava praticamente o tempo todo com ele, e ele comigo. Ele gostava de zumbis, John Mayer, café, Guitar Hero e do jogo da verdade, e por incrível que pareça, eu também.
Quinta-feita, 10 de Novembro, 14:30 da tarde.
— M&M’s.
— Café.
— Nirvana.
— Loiras.
— The Maine.
— Ruivas.
— Guitar Hero.
— Morenas.
— Ok, já entendi que você gosta de loiras, morenas e ruivas. Pode dizer algo mais interessante?
— Não existe coisa mais interessante que garotas.
— Dá pra parar, por favor? Eu tô aqui, tá? Esqueceu que eu sou uma garota?
— É diferente, você é minha amiga.
— Vamos continuar com a brincadeira ou não?
— Do que a gente tava brincando mesmo?
— Você diz algo que eu gosto, e eu também. Vamos lá.
— Loiras. Gosto de loiras mais do que morenas e ruivas. — Eu sorri, não sei porque. Eu sou loira mas sou uma loira que definitivamente ele nunca estaria afim.
— Gosto de quando você canta “The Heart Of Life” no elevador.
— Você anda me espionando? É isso mesmo?
— Sim, mas é só ás vezes.
— Cara, tenho que lembrar de não cantar mais no elevador.
— Mas eu gosto.
— Justamente por isso.
— Seu chato. Vai, continua com a brincadeira.
— Não sei do que mais eu gosto.
— Tá, espera, eu sei.
— Sabe nada.
— Você gosta de mim, admite, vai. — Ele riu de mim, não em tom de deboche, ou talvez até seja. Mas parecia que ele tava se divertindo com aquilo, e eu gostava de vê-lo sorrir, até mesmo quando o motivo de piada era eu. Qual era o meu problema? Sinceramente, eu entrei em uma puta enrascada, hein? — Qual a graça?
— Você.
— O que tem eu?
— Não sabia que você contava piadas.
— Vai te catar!
— Já te disse que gosto de loiras, não disse? Você é loira, pode se considerar gostada.
— Mas é diferente.
— Gosto de uma loira em especial, sabia?
— A sua vizinha do 306, é?
— Você.
— Para de brincar, garoto. É sério, no jogo não pode mentir, é como se fosse o jogo da verdade.
— E se eu mentir, o que eu tenho que fazer?
— Sei lá, tem que me dar dez reais.
— E se você mentir?
— O que você quer em troca? Se bem que eu não vou mentir.
— Quero um beijo.
— Feito.
— Futebol.
— Brigadeiro de panela.
— Vodca.
— Beijos.
— Loiras.
— Morenos.
— Zumbis.
— Zumbis.
— Você.
— Ahá! Te peguei. Me deve dez reais.
— Não menti. Gosto de você. Você gosta de mim?
— Não. Te odeio. — É, eu menti.
— Você me deve um beijo.
— Quem disse que eu menti?
— Conheço loiras, conheço você. Gosto especificadamente de uma loira, e eu a conheço. Ela gosta de mim também. Você gosta de mim.
— Não quero te beijar. E eu não gosto de você.
— Me deve dois beijos, mentiu de novo. Quer o terceiro de brinde?
3x0 pra ele. É, eu perdi. A questão era que eu sempre iria perder pra ele, porque ele já havia me ganhado há muito tempo. E sabe, eu gostei de ter perdido. Gostei quase quanto eu gosto dele. E agora eu sabia muito mais sobre o garoto do 305. Ele tinha um sorriso lindo, gostava de Zumbis, cantava músicas do John Mayer no elevador, gostava de loiras, e também de mim. E droga, eu gostava dele. Gostava mesmo, muito, talvez até mais do que ele gostava de mim. E quer saber mais uma coisa sobre o garoto do 305? Ele sempre iria me vencer, porque o mais importante, que era eu, ele já havia ganhado.

©